A divina arte do seu cérebro resolver um problema criando outro

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Equipe Boa Terapia

Psicólogos experientes prontos para atender com ética e discrição. Mais de 20 anos de excelência em psicoterapia. Tratamentos cientificamente validados.

Por Dr. Igor Londero – PhD em Psiquiatria e ciências do comportamento. Fundador da Boa Terapia.

São onze e meia da noite, amanhã tem aquela reunião que você preferia não ter, e em vez de dormir você abre o celular “só para desligar um pouco”. Uma hora e meia depois, a reunião continua lá, agora com você cansado. O cérebro, que queria aliviar a tensão, conseguiu o que queria: durante noventa minutos a reunião deixou de existir. O preço veio junto, mas chegou depois, e é justamente esse atraso que torna o negócio tão atraente.

Quase todo mundo tem a sua versão dessa cena. O que ela tem de interessante é o mecanismo, que se repete em áreas muito diferentes da vida e costuma passar despercebido porque, olhada de perto, cada escolha parece razoável.

O alívio ensina mais rápido que a consequência

Comportamentos que tiram um desconforto da frente tendem a se repetir. Na psicologia isso se chama reforço negativo, e não há nada de patológico nisso, já que é o mesmo princípio que faz você tirar a mão da panela quente. A coisa se complica quando o desconforto em questão é uma conversa difícil, uma tarefa chata ou uma dúvida que não se resolve.

Nesses casos, o alívio vem em segundos e é inequívoco, enquanto o custo se espalha ao longo de dias ou meses, misturado com tantas outras coisas que fica difícil ligá-lo à escolha que o produziu. Como o cérebro aprende com mais facilidade aquilo que é imediato e claro, a fuga fica associada ao alívio, e a conta nunca chega a ser registrada como consequência dela.

Alguns exemplos conhecidos

A procrastinação é talvez o caso mais estudado. A leitura popular fala em preguiça ou desorganização, mas os pesquisadores Fuschia Sirois e Timothy Pychyl propuseram, em 2013, que ela funciona em boa medida como uma forma de regular o humor no curto prazo, porque adiar a tarefa faz o mal-estar sumir agora. A tarefa, por sua vez, não some. O prazo encurta e, na próxima vez que ela aparecer, virá acompanhada de culpa, o que a torna ainda mais desagradável e, portanto, ainda mais fácil de adiar.

A evitação segue a mesma lógica. Quem deixa de ir a um aniversário porque imagina que vai se sentir deslocado sente alívio no sábado à noite, mas perde a chance de descobrir que talvez não se sentisse, ou que se sentiria um pouco e ficaria tudo bem. A previsão ruim permanece intacta, sem teste, e na festa seguinte ela chega com um pouco mais de autoridade.

A preocupação é mais traiçoeira porque parece trabalho. Passar horas repassando o que pode dar errado dá a sensação de estar se preparando. Thomas Borkovec, que estudou o tema durante décadas, propôs que a preocupação, por ser um processo predominantemente verbal, amortece em alguma medida a ativação emocional mais intensa, e que isso ajuda a explicar por que ela se mantém. Some-se a isso o fato de que a maior parte do que tememos simplesmente não acontece, e o cérebro conclui, de forma bastante supersticiosa, que foi a preocupação que evitou o pior.

Há também a busca por confirmação. “Você ficou chateado comigo?” O “não” acalma por alguns minutos, até a próxima dúvida, que agora pede uma resposta um pouco mais convincente. Quanto mais se pergunta, menos confiável parece a própria percepção, e mais se depende de perguntar de novo.

E há o esforço para não pensar em algo. Daniel Wegner e colegas mostraram, num experimento de 1987 que ficou famoso, que pessoas instruídas a não pensar em um urso branco continuavam pensando nele com frequência, e que o urso voltava com mais força quando a proibição era suspensa. Mandar um pensamento embora acaba sendo uma ótima maneira de lembrar o cérebro de que ele existe.

Quando a solução vira o problema

Nos anos 1970, Paul Watzlawick, John Weakland e Richard Fisch, do Mental Research Institute de Palo Alto, formularam uma ideia que continua muito útil: muitas dificuldades se mantêm menos por causa do problema original e mais por causa das tentativas de resolvê-lo. Diante de algo que não funciona, a tendência humana é fazer mais do mesmo, com mais empenho. Quem não consegue dormir se esforça para dormir, e o esforço é justamente o que mantém a pessoa acordada. Quem tem medo de ser deixado de lado manda mais uma mensagem, e depois outra, até que a insistência produza o afastamento que se queria evitar.

É isso que o título tenta dizer com alguma ironia. O cérebro não está sabotando você. Ele faz exatamente aquilo para que foi moldado, que é buscar alívio e segurança o mais rápido possível, e simplesmente não tem muito jeito para olhar o saldo de seis meses.

Por que entender isso não basta

Seria ótimo se bastasse ler um texto como este para o ciclo se desfazer, mas não costuma ser assim. Esses padrões foram aprendidos pela experiência, repetidos centenas de vezes, e tendem a ser modificados também pela experiência, muito mais do que pelo raciocínio. Dá para saber perfeitamente que evitar a conversa vai piorar a situação e, ainda assim, evitá-la na quinta-feira.

O que costuma ajudar começa por uma pergunta simples, feita no momento em que o comportamento acontece: do que isso está me livrando agora? A resposta raramente é a que a gente daria de antemão. Depois, envolve aceitar ficar um pouco no desconforto sem recorrer à saída de sempre, o suficiente para que o cérebro tenha a chance de aprender outra coisa, por exemplo que a festa foi só uma festa, ou que a pergunta não feita não trouxe desastre nenhum.

Isso é mais difícil de fazer sozinho do que parece, em parte porque as soluções que viraram problema são exatamente as que parecem mais sensatas vistas de dentro. Uma parte importante do trabalho em psicoterapia costuma ser identificar quais são elas e construir, com tempo, outras maneiras de lidar com aquilo que elas tentavam resolver.

Referências

Borkovec, T. D., Alcaine, O. M., & Behar, E. (2004). Avoidance theory of worry and generalized anxiety disorder. In R. G. Heimberg, C. L. Turk, & D. S. Mennin (Eds.), Generalized anxiety disorder: Advances in research and practice (pp. 77-108). Guilford Press.

Sirois, F., & Pychyl, T. (2013). Procrastination and the priority of short-term mood regulation: Consequences for future self. Social and Personality Psychology Compass, 7(2), 115-127.

Watzlawick, P., Weakland, J. H., & Fisch, R. (1974). Change: Principles of problem formation and problem resolution. W. W. Norton.

Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R., & White, T. L. (1987). Paradoxical effects of thought suppression. Journal of Personality and Social Psychology, 53(1), 5-13.

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